domingo, 28 de fevereiro de 2010

EJA: Uma Educação Possível ou Mera Utopia???

EJA: UMA EDUCAÇÃO POSSÍVEL OU MERA UTOPIA?
* Selva Paraguassu Lopes
** Luzia Silva Sousa

O desenvolvimento da alfabetização de adultos no Brasil acompanha a história
da educação como um todo e teve início com o trabalho de catequização e ensino das
primeiras letras, realizado pelos jesuítas, durante o Brasil colônia. Ao longo do tempo, o
avanço econômico e tecnológico passou a exigir mão-de-obra cada vez mais qualificada e
alfabetizada, com isso várias medidas políticas e pedagógicas foram sendo adotadas, tais
como: a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA), a Campanha Nacional
de Erradicação do Analfabetismo (CNEA), o Movimento MOBRAL, o Ensino Supletivo etc.
A qualidade do ensino depende muito da relação professor-aluno. A capacitação do educador
se faz por duas vias: a via externa, representada por cursos de capacitação, aperfeiçoamento,
seminários etc, e a via interior, que é a autocrítica que cada professor deve fazer sobre seu
papel na sociedade, utilizando-se do debate coletivo e da crítica recíproca com os colegas.
Palavras-chave: Educação de jovens e adultos, formação docente, Mobral.
* Graduada em Pedagogia e Mestre em Ciências da Educação pela Universidad Internacional de Lisboa, .Profª da Faculdade Santa
Terezinha e Faculdade Michelangelo
** Pedagoga
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INTRODUÇÃO
A educação de jovens e adultos é uma modalidade de ensino, amparada por lei e
voltada para pessoas que não tiveram acesso, por algum motivo, ao ensino regular na idade
apropriada. Porém são pessoas que têm cultura própria. Sabe-se que o papel docente é de
fundamental importância no processo de reingresso do aluno às turmas de EJA. Por isso, o
professor da EJA deve, também, ser um professor especial, capaz de identificar o potencial de
cada aluno. O perfil do professor da EJA é muito importante para o sucesso da aprendizagem
do aluno adulto que vê seu professor como um modelo a seguir.
É preciso que a sociedade compreenda que alunos de EJA vivenciam problemas
como preconceito, vergonha, discriminação, críticas dentre tantos outros. E que tais questões
são vivenciadas tanto no cotidiano familiar como na vida em comunidade.
Mister se faz evidenciar que a EJA é uma educação possível e capaz de mudar
significativamente a vida de uma pessoa, permitindo-lhe reescrever sua história de vida
Sabe-se que educar é muito mais que reunir pessoas numa sala de aula e
transmitir-lhes um conteúdo pronto. É papel do professor, especialmente do professor que
atua na EJA, compreender melhor o aluno e sua realidade diária. Enfim, é acreditar nas
possibilidades do ser humano, buscando seu crescimento pessoal e profissional.
Discute-se que a qualidade do ensino está diretamente ligada à preparação do
professor, que terá de se capacitar para estar atuando junto às turmas de educação de jovens e
adultos tal capacitação deve ser reconhecida e valorizada, uma vez que esta modalidade de
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ensino acolhe jovens e adultos que não tiveram oportunidade de estudar no período certo e a
busca do reconhecimento da importância da EJA é acima de tudo compreender que mister se
faz erradicar o analfabetismo e não o analfabeto.
ASPECTOS HISTÓRICOS DA EJA NO BRASIL
A história da Educação de Jovens e Adultos (EJA) apresenta muitas
variações ao longo do tempo, demonstrando estar estreitamente ligada às transformações
sociais, econômicas e políticas que caracterizaram os diferentes momentos históricos do país.
Inicialmente a alfabetização de adultos para os colonizadores, tinha como
objetivo instrumentalizar a população, ensinando-a a ler e a escrever. Essa concepção foi
adotada para que os colonos pudessem ler o catecismo e seguir as ordens e instruções da
corte, os índios pudessem ser catequizados e, mais tarde, para que os trabalhadores
conseguissem cumprir as tarefas exigidas pelo Estado.
A expulsão dos Jesuítas, ocorrida no século XVIII, desorganizou o ensino
até então estabelecido. Novas iniciativas sobre ações dirigidas à educação de adultos somente
ocorreram durante a época do Império.
Desde a Revolução de 1930, as mudanças políticas e econômicas
permitiram o início da consolidação de um sistema público de educação elementar no país.
A Constituição de 1934 estabeleceu a criação de um Plano Nacional de
Educação, que indicava pela primeira vez a educação de adultos como dever do Estado,
incluindo em suas normas a oferta do ensino primário integral, gratuito e de freqüência
obrigatória, extensiva para adultos.
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A década de 40 foi marcada por algumas iniciativas políticas e pedagógicas
que ampliaram a educação de jovens e adultos: a criação e a regulamentação do Fundo
Nacional do Ensino Primário (FNEP); a criação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
(INEP); o surgimento das primeiras obras dedicadas ao ensino supletivo; o lançamento da
Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA), e outros. Este conjunto de
iniciativas permitiu que a educação de adultos se firmasse como uma questão nacional. Ao
mesmo tempo, os movimentos internacionais e organizações como a UNESCO, exerceram
influência positiva, reconhecendo os trabalhos que vinham sendo realizados no Brasil e
estimulando a criação de programas nacionais de educação de adultos analfabetos.
Em 1946, com a instalação do Estado Nacional Desenvolvimentista, houve
um deslocamento do projeto político do Brasil, passando do modelo agrícola e rural para um
modelo industrial e urbano, que gerou a necessidade de mão-de-obra qualificada e
alfabetizada.
Em 1947, o MEC promoveu a Campanha de Educação de Adolescentes e
Adultos (CEAA). A campanha possuía duas estratégias: os planos de ação extensiva
(alfabetização de grande parte da população) e os planos de ação em profundidade
(capacitação profissional e atuação junto à comunidade). O objetivo não era apenas
alfabetizar, mas aprofundar o trabalho educativo. Essa campanha – denominada CEAA –
atuou no meio rural e no meio urbano, possuindo objetivos diversos, mas diretrizes comuns.
No meio urbano visava a preparação de mão-de-obra alfabetizada para atender às
necessidades do contexto urbano-industrial. Na zona rural, visava fixar o homem no campo,
além de integrar os imigrantes e seus descendentes nos Estados do Sul.
Apesar de, no fundo, ter o objetivo de aumentar a base eleitoral (o analfabeto não
tinha direito ao voto) e elevar a produtividade da população, a CEAA contribuiu
para a diminuição dos índices de analfabetismo no Brasil (Vieira, 2004, p. 19-20).
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Ainda em 1947, realizou-se o 1º Congresso Nacional de Educação de
Adultos. E em 1949 foi realizado mais um evento de extrema importância para a educação de
adultos: o Seminário Interamericano de Educação de Adultos. Em 1952 foi criada a
Campanha Nacional de Educação Rural (CNER), inicialmente ligada a Campanha de
Educação de Adolescentes e Adultos - CEAA. A CNER caracterizou-se, no período de 1952 a
1956, como uma das instituições promotoras do processo de desenvolvimento de
comunidades no meio rural brasileiro. Contava com um corpo de profissionais de áreas
diversas como agronomia, veterinária, medicina, economia doméstica e assistência social,
entre outras, que realizavam trabalho de desenvolvimento comunitário junto às populações da
zona rural.
Ainda nos anos 50, foi realizada a Campanha Nacional de Erradicação do
Analfabetismo (CNEA), que marcou uma nova etapa nas discussões sobre a educação de
adultos. Seus organizadores compreendiam que a simples ação alfabetizadora era insuficiente,
devendo dar prioridade à educação de crianças e jovens, aos quais a educação ainda poderia
significar alteração em suas condições de vida. "A CNEA, em 1961, passou por dificuldades
financeiras, diminuindo suas atividades. Em 1963 foi extinta, juntamente com as outras
campanhas até então existentes "(Vieira, 2004, p. 21-22).
Em 1958, foi realizado o segundo Congresso Nacional de Educação de
Adultos, objetivando avaliar as ações realizadas na área e visando propor soluções adequadas
para a questão. Foram feitas críticas à precariedade dos prédios escolares, à inadequação do
material didático e à qualificação do professor. A delegação de Pernambuco, da qual Paulo
Freire fazia parte, propôs uma educação baseada no diálogo, que considerasse as
características socioculturais das classes populares, estimulando sua participação consciente
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na realidade social. Nesse congresso se discutiu, também, a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional e, em decorrência, foi elaborada em 1962 o Plano Nacional de Educação,
sendo extintas as campanhas nacionais de educação de adultos em 1963.
Na década de 60, com o Estado associado à Igreja Católica, novo impulso
foi dado às campanhas de alfabetização de adultos. No entanto, em 1964, com o golpe militar,
todos os movimentos de alfabetização que se vinculavam à idéia de fortalecimento de uma
cultura popular foram reprimidos. O Movimento de Educação de Bases (MEB) sobreviveu
por estar ligado ao MEC e à igreja Católica. Todavia, devido às pressões e à escassez de
recursos financeiros, grande parte do sistema encerrou suas atividades em 1966.
A década de 70, ainda sob a ditadura militar, marca o início das ações do
Movimento Brasileiro de Alfabetização – o MOBRAL, que era um projeto para se acabar com
o analfabetismo em apenas dez anos. Após esse período, quando já deveria ter sido cumprida
essa meta, o Censo divulgado pelo IBGE registrou 25,5% de pessoas analfabetas na
população de 15 anos ou mais. O programa passou por diversas alterações em seus objetivos,
ampliando sua área de atuação para campos como a educação comunitária e a educação de
crianças.
O ensino supletivo, implantado em 1971, foi um marco importante na
história da educação de jovens e adultos do Brasil.
Durante o período militar, a educação de adultos adquiriu pela primeira vez na sua
história um estatuto legal, sendo organizada em capítulo exclusivo da Lei nº
5.692/71, intitulado ensino supletivo. O artigo 24 desta legislação estabelecia com
função do supletivo suprir a escolarização regular para adolescentes e adultos que
não a tenham conseguido ou concluído na idade própria. (Vieira, 2004, p. 40).
Foram criados os Centros de Estudos Supletivos em todo o País, com a
proposta de ser um modelo de educação do futuro, atendendo às necessidades de uma
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sociedade em processo de modernização. O objetivo era escolarizar um grande número de
pessoas, mediante um baixo custo operacional, satisfazendo às necessidades de um mercado
de trabalho competitivo, com exigência de escolarização cada vez maior.
O sistema não requeria freqüência obrigatória e a avaliação era feita em dois
módulos: uma interna ao final dos módulos e outra externa feita pelos sistemas educacionais.
Contudo, a metodologia adotada gerou alguns problemas: o fato de os cursos não exigirem
freqüência faz com que os índices de evasão sejam elevados, o atendimento individual impede
a socialização do aluno com os demais colegas, a busca por uma formação rápida a fim de
ingressar no mercado de trabalho, restringe o aluno à busca apenas do diploma sem
conscientização da necessidade do aprendizado.
Na visão de (Haddad, 1991) os Centros de Estudos Supletivos não atingiram
seus objetivos verdadeiros, pois, não receberam o apoio político nem os recursos financeiros
suficientes para sua plena realização. Além disso, seus objetivos estavam voltados para os
interesses das empresas privadas de educação.
No início da década de 80, a sociedade brasileira viveu importantes
transformações sócio-políticas com o fim dos governos militares e a retomada do processo de
democratização, basta lembrar da campanha nacional a favor das eleições diretas. Em 1985, o
MOBRAL foi extinto, sendo substituído pela Fundação EDUCAR. O contexto da
redemocratização possibilitou a ampliação das atividades da EJA. Estudantes, educadores e
políticos organizaram-se em defesa da escola pública e gratuita para todos. A nova
Constituição de 1988 trouxe importantes avanços para a EJA: o ensino fundamental,
obrigatório e gratuito, passou a ser garantia constitucional também para os que a ele não
tiveram acesso na idade apropriada.
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Contudo, a partir dos anos 90, a EJA começou a perder espaço nas ações
governamentais. Em março de 1990, com o início do governo Collor, a Fundação EDUCAR
foi extinta e todos os seus funcionários colocados em disponibilidade. Em nome do
enxugamento da máquina administrativa, a União foi se afastando das atividades da EJA e
transferindo a responsabilidade para os Estados e Municípios.
Em janeiro de 2003, o MEC anunciou que a alfabetização de jovens e
adultos seria uma prioridade do novo governo federal. Para isso, foi criada a Secretaria
Extraordinária de Erradicação do Analfabetismo, cuja meta é erradicar o analfabetismo
durante o mandato de quatro anos do governo Lula. Para cumprir essa meta foi lançado o
Programa Brasil Alfabetizado, por meio do qual o MEC contribuirá com os órgãos públicos
estaduais e municipais, instituições de ensino superior e organizações sem fins lucrativos que
desenvolvam ações de alfabetização.
No Programa Brasil Alfabetizado, a assistência será direcionada ao
desenvolvimento de projetos com as seguintes ações: Alfabetização de jovens e adultos e
formação de alfabetizadores.
É necessário que o alfabetizador, antes de iniciar as atividades de ensino,
conheça o grupo com o qual irá trabalhar. Esse conhecimento prévio pode ser pelo cadastro
dos alunos e pelo diagnóstico inicial que deve servir de base para o planejamento das
atividades. A intenção é tornar o processo de alfabetização participativo e democrático. A
formação de alfabetizadores compreende a formação inicial e a formação continuada.
O Programa está em andamento, por isso não é possível, ainda, afirmar se o
objetivo pretendido foi alcançado.
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É preciso de haja continuidade das ações governamentais. O Programa
Brasil Alfabetizado foi criado para ter duração de quatro anos - enquanto durar a gestão do
governo Lula. Contudo, nada impede que o próximo Presidente dê continuidade a esse
programa. Os resultados seriam muito melhores se houvesse seguimento nos programas já
implantados, pois evitaria perda de tempo e de dinheiro na criação de novos programas, como
vem acontecendo ao longo dos anos: muda o presidente, mudam os programas. Deve haver,
também, a ligação do programa de alfabetização com outros programas governamentais ou
não, como é o caso do bem sucedido programa Alfabetização Solidária. Que é hoje
indiscutivelmente um programa de relevância quando o assunto é alfabetização de jovens e
adultos. Sua abrangência educacional transcende as fronteiras Brasileiras e já é destaque e
modelo de Educação em vários países.
A Educação de Jovens e Adultos deve ser tratada juntamente com outras
políticas públicas e não isoladamente.
Mesmo reconhecendo a disposição do governo em estabelecer uma política ampla
para EJA, especialistas apontam a desarticulação entre as ações de alfabetização e de
EJA, questionando o tempo destinado à alfabetização e à questão da formação do
educador. A prioridade concedida ao programa recoloca a educação de jovens e
adultos no debate da agenda das políticas públicas, reafirmando, portanto, o direito
constitucional ao ensino fundamental, independente da idade. Todavia, o direito à
educação não se reduz à alfabetização. A experiência acumulada pela história da
EJA nos permite reafirmar que intervenções breves e pontuais não garantem um
domínio suficiente da leitura e da escrita. Além da necessária continuidade no
ensino básico, é preciso articular as políticas de EJA a outras políticas. Afinal, o
mito de que a alfabetização por si só promove o desenvolvimento social e pessoal há
muito foi desfeito. Isolado, o processo de alfabetização não gera emprego, renda e
saúde.(Vieira, 2004, p. 85-86).
Apesar de não estar havendo continuidade dos programas ao longo dos tempos, a
Educação de Jovens e Adultos está sempre sendo buscada, com o objetivo de realmente
permitir o acesso de todos à educação, independentemente da idade. Desta forma, fica claro o
caminho que a EJA percorreu em nosso país até chegar aos dias de hoje. Muito já foi feito,
mas ainda há o que se fazer. Não se pode acomodar com os avanços já conseguidos, é
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necessário vislumbrar novos horizontes na busca da total erradicação do analfabetismo em
nosso país, pois a educação é direito de todos.
A DÉCADA DE 60 E A PROPOSTA DE PAULO FREIRE
A história da EJA no Brasil está muito ligada a Paulo Freire. O Sistema
Paulo Freire, desenvolvido na década de 60, teve sua primeira aplicação na cidade de
Angicos, no Rio Grande do Norte. E, com o sucesso da experiência, passou a ser conhecido
em todo País, sendo praticado por diversos grupos de cultura popular.
Com ele ocorreu uma mudança no paradigma teórico-pedagógico sobre a
EJA. Durante muitos séculos, para alfabetizar alguém se utilizava o método silábico de
aprendizagem, ou seja, partia-se da idéia de que se conhecendo as sílabas e juntando-as
poderia formar qualquer palavra. Por isso, os alunos recebiam cartilhas com sílabas e,
orientados pelo professor, passavam a tentar juntá-las para formar palavras e frases soltas, que
muitas vezes só memorizavam e repetiam. Por essa concepção, não se desenvolvia o
pensamento crítico; não importava entender o que era escrito e o que era lido porque o
importante era dominar o código.
Por essas novas concepções, educador e educando devem interagir. São
criados novos métodos de aprendizagem, por meio dos quais o alfabetizador trabalha o
conteúdo a ser ensinado - a língua escrita - com a preocupação de que seus alunos estejam
compreendendo o sentido para o sistema da escrita, a partir de temas e palavras geradoras,
ligadas às suas experiências de vida.
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Nessa nova concepção de alfabetização, a língua escrita vem acompanhada
por um processo de construção do conhecimento, que se dá por meio de diálogos de interação
entre educador e educando. Paulo Freire, importante autor na história da alfabetização de
adultos, foi punido e cassado pós-64 e suas idéias foram proibidas de circular no Brasil
durante muito tempo.
A proposta de Paulo Freire baseia-se na realidade do educando, levando-se
em conta suas experiências, suas opiniões e sua história de vida. Esses dados devem ser
organizados pelo educador, a fim de que as informações fornecidas por ele, o conteúdo
preparado para as aulas, a metodologia e o material utilizados sejam compatíveis e adequados
às realidades presentes. Educador e educandos devem caminhar juntos, interagindo durante
todo o processo de alfabetização. É importante que o adulto alfabetizando compreenda o que
está sendo ensinado e que saiba aplicar em sua vida o conteúdo aprendido na escola.
Segundo (Freire, 2002, p. 58) a relação professor-aluno deve ser:
Para ser um ato de conhecimento o processo de alfabetização de adultos demanda,
entre educadores e educandos, uma relação de autêntico diálogo. Aquela em que os
sujeitos do ato de conhecer (educador-educando; educando-educador) se encontram
mediatizados pelo objeto a ser conhecido. Nesta perspectiva, portanto, os
alfabetizandos assumem, desde o começo mesmo da ação, o papel de sujeitos
criadores. Aprender a ler e escrever já não é, pois, memorizar sílabas, palavras ou
frases, mas refletir criticamente sobre o próprio processo de ler e escrever e sobre o
profundo significado da linguagem.
O chamado "método” Paulo Freire tem como objetivo a alfabetização
visando à libertação. Essa libertação não se dá somente no campo cognitivo, mas deve
acontecer, essencialmente, nos campos sócio-cultural e político, pois o ato de conhecer não é
apenas cognitivo, mas político, e se realiza no seio da cultura.
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A visão ingênua que os indivíduos têm da realidade torna-os escravos, na
medida em que, não sabendo que podem transformá-la, sujeitam-se a ela. Essa descrença na
possibilidade de intervir na realidade em que vivem é alimentada pelas cartilhas e manuais
escolares que colocam homens e mulheres como observadores e não como sujeitos ativos
dessa realidade.
A FORMAÇÃO DOCENTE
As instituições de ensino, públicas e particulares, têm se preocupado muito
com a formação de seu corpo docente, pois sabem que a qualidade do ensino depende muito
da relação professor-aluno.
A educação de jovens e adultos é toda educação destinada àqueles que não tiveram
oportunidades educacionais em idade própria ou que a tiveram de forma
insuficiente, não conseguindo alfabetizar-se e obter os conhecimentos básicos
necessários (Paiva, 1973, p. 16).
Esse conceito nos faz perceber que o professor que vai atuar com jovens e
adultos deve ter uma formação especial, que lhe permita compreender os anseios e
necessidades dessas pessoas tão especiais, além de saber lidar com os sentimentos delas.
Muito se discute, atualmente, sobre a formação do professor de jovens e
adultos, pois o educador deve ter consciência de sua força no desenvolvimento do educando.
A educação de jovens e adultos requer do educador conhecimentos específicos no
que diz respeito ao conteúdo, metodologia, avaliação, atendimento, entre outros,
para trabalhar com essa clientela heterogênea e tão diversificada culturalmente
(Arbache, 2001, p. 19).
O professor da EJA deve compreender a necessidade de respeitar a
pluralidade cultural, as identidades, as questões que envolvem classe, raça, saber e linguagem
dos seus alunos, caso contrário, o ensino ficará limitado à imposição de um padrão, um
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modelo pronto e acabado em que se objetiva apenas ensinar a ler e escrever, de forma
mecânica.. Enfim, o que se pretende com a educação de jovens e adultos é dar oportunidade
igual a todos.
Novo enfoque está sendo dado à educação de jovens e adultos.
É necessário superar a idéia de que a EJA se esgota na alfabetização, desligada da
escolarização básica de qualidade. É também necessário superar a descontinuidade
das ações institucionais e o surgimento de medidas isoladas e pontuais,
fragmentando e impedindo a compreensão da problemática. É preciso desafiar o
encaminhamento de possíveis resoluções que levem à simplificação do fenômeno do
analfabetismo e do processo de alfabetização, reduzindo o problema a uma mera
exposição de números e indicadores descritivos. Visualizar a educação de jovens e
adultos levando em conta a especificidade e a diversidade cultural dos sujeitos que a
ela recorrem torna-se, pois, um caminho renovado e transformador nessa área
educacional (Arbache, 2001, p. 22).
Educar jovens e adultos, hoje, não é apenas ensiná-los a ler e escrever seu
próprio nome. É oferecer-lhes uma escolarização ampla e com mais qualidade. E isso requer
atividades contínuas e não projetos isolados que, na primeira dificuldade, são deixados de
lado para o início de outro. Além disso, a educação de jovens e adultos não deve se preocupar
apenas em reduzir números e índices de analfabetismo. Deve ocupar-se de fato com a cultura
do educando, com sua preparação para o mercado de trabalho e como previsto nas diretrizes
curriculares da EJA a mesma tem como funções: reparar, qualificar e equalizar o ensino.
A sociedade educa o educador num processo sem fim e de complexidade
crescente e, da mesma forma, controla suas atividades, pois a qualidade técnica e profissional
do educador está sempre submetida ao controle social pelos dispositivos legais que lhe
atribuem este grau, asseguram-lhe o exercício da docência e lhe proporcionam meios de
constante aperfeiçoamento. Contudo, há outro controle, que é, de fato, o mais importante: o
que é exercido pela própria consciência do educador. É o autocontrole do professor.
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Neste segundo sentido compete ao professor, além de incrementar seus
conhecimentos e atualizá-los, esforçar-se por praticar os métodos mais adequados
em seu ensino, proceder a uma análise de sua própria realidade pessoal como
educador, examinar com autoconsciência crítica sua conduta e seu desempenho, com
a intenção de ver se está cumprindo aquilo que sua consciência crítica da realidade
nacional lhe assinala como sua correta atividade. (Pinto, 2000, p. 113).
A capacitação crescente do educador se faz, assim, por duas vias; a via
externa, representada por cursos de capacitação, aperfeiçoamento, seminários, leitura de
periódicos especializados etc., e a via interior, que é a autocrítica que cada professor deve
fazer, indagando sobre seu papel na sociedade e se, de fato, o está cumprindo.
Um dos grandes problemas na formação docente é a auto-suficiência. Julgar
que sabem tudo é o grande erro dos docentes, pois a condição para o constante
aperfeiçoamento do educador não é somente a sensibilidade aos estímulos intelectuais, mas é
fundamentalmente a consciência de sua natureza inconclusa como sabedor. Não são os
negligentes e sim os auto-suficientes que estacionam no caminho de sua formação
profissional. Julgar sabedor de tudo e considerar que seu papel na educação nada mais exige
deles, é uma noção que paralisa a consciência do educador e o torna incapaz de progredir.
Progredir não significa apenas adquirir novos conhecimentos. É abrir a
própria consciência para as inovações que surgem diariamente e repensar a própria
metodologia de ensino.
Conhecer a prática docente do professor que atua no campo específico da educação
de jovens e adultos torna-se necessário também à compreensão específica deste tipo
de ensino quanto à possibilidade de intervenções que objetivem uma educação de
qualidade (acesso, permanência e aquisição de conhecimentos básicos à vida e ao
trabalho (Guidelli, 1996, p. 13).
O professor que realmente quer estar atualizado deve discutir a didática que
está sendo utilizada na educação de jovens e adultos, na tentativa de melhor adequá-la às
necessidades dos educandos, mudando-a sempre que necessário.
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O educador deve perceber o aluno como um ser pensante, cheio de
capacidade e portador de idéias, que se apresentam espontaneamente, em uma conversação
simples e em suas críticas aos fatos do dia-a-dia. O mesmo deve apresentar-se como um
aliado do educando, e não como um “doutor”, arrogante, pois nesse caso o aluno vai se sentir
inferiorizado, discriminado. O aluno adulto tem muito a contribuir para o processo de ensinoaprendizagem,
não só por ser um trabalhador, mas pelo conjunto de ações que exerce na
família e na sociedade.
De sua parte, o educando, especialmente o adulto, ao perceber que está
sendo tratado como um agente ativo, participante do processo de aprendizagem, vai se sentir
mais interessado e mais responsável. A responsabilidade é tão superior nessa concepção que o
aluno compreende que está mudando sua sociedade, sua realidade e a essência de seu país
pelo fato de estar mudando a si mesmo e que a educação que recebe não é favor ou caridade e
sim um direito instituido conforme parecer 11/2000 que trata das Diretrizes curriculares para
Educação de Jovens e Adultos.
EJA: UMA EDUCAÇÃO POSSÍVEL
Com o passar dos anos, novas tecnologias foram criadas exigindo mão-deobra
cada vez mais qualificada. Além disso, várias famílias que moravam em zonas rurais
migraram para os centros urbanos, uma vez que a economia, que era predominantemente
agrícola, passou a concentrar suas atividades no comércio e na indústria. Diante desta
realidade, o analfabetismo passou a ser reconhecido como problema, pois, até então, morando
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longe das cidades, o fato de não saber ler e escrever não dificultava a obtenção de um
emprego no cultivo de lavouras.
Mas, com o crescimento social, a mudança econômica e o avanço
tecnológico, as pessoas se sentem obrigadas a procurar a escola na tentativa de conseguir um
emprego na cidade, melhorar seu padrão de vida ou manter-se atualizado.
As mudanças ocorridas no mercado de trabalho, no entanto, vêm exigindo
mais conhecimentos e habilidades das pessoas, assim como atestados de maior escolarização,
obrigando-as a voltar à escola básica, como jovem, ou já depois de adultas, para aprender um
pouco mais ou para conseguir um diploma. Essa realidade tem sido responsável pela criação
de diversos projetos voltados para a alfabetização e educação de jovens e adultos.
A educação de adultos é uma necessidade tanto na comunidade como nos
locais de trabalho. À medida que a sociedade se desenvolve novas possibilidades de
crescimento profissional surgem, mas, por outro lado, exigem maior qualificação e constante
atualização de conhecimentos e habilidades.
À medida que a sociedade vai se desenvolvendo, surge a necessidade da
escolarização e é bom que isso aconteça, pois a educação dos adultos favorece a educação das
crianças e adolescentes porque quanto mais os pais estudam mais conscientes ficam da
importância da educação e mais contribuirão para que seus filhos permaneçam na escola.
Se por um lado, a educação tem assumido novos contornos em face das
mudanças ocorridas na sociedade, por outro, a educação é a responsável pelo crescimento
social, pois à medida que as pessoas vão ficando mais escolarizadas, o nível de vida vai
melhorando, as pessoas ficam mais conscientes, críticas e exigentes. E, com isso, vão
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melhorando as condições de higiene, de alimentação, de saúde, de segurança e de satisfação
pessoal. Enfim, a educação possibilita o desenvolvimento da sociedade. Segundo (Fasheh,
1999, p. 166) “aprender a ler e a escrever pode ajudar uma pessoa a ser livre”.
Sabe-se que a educação é o instrumento que vai permitir às pessoas buscarem uma melhoria
de vida, capacitando-se para competir no mercado de trabalho bem como reconhecer seus
direitos.
Para que aumentem as possibilidades individuais de educação, e para que se tornem
universais, é necessário que mude o ponto de vista dominante sobre o valor do
homem na sociedade, o que só ocorrerá pela mudança de valoração atribuída ao
trabalho. Quando o trabalho manual deixar de ser um estigma e se converter em
simples diferenciação do trabalho social geral, a educação institucionalizada perderá
o caráter de privilégio e será um direito concretamente igual para todos (Pinto, 2000,
p.37).
É muito comum, ainda, a concepção de que a partir de certa idade já é tarde
para se estudar. Contudo, há histórias de vida que têm mostrado justamente o contrário: a
garantia da educação de qualidade para jovens e adultos tem permitido mudanças nos
relacionamentos dos sujeitos envolvidos, abrindo novas possibilidades profissionais. (Klingl,
Correio Braziliense, 07.09.04, p. 12) divulga a história do professor de Letras Manoel Celso
Lopes, 47 anos, que se iniciou recentemente no magistério da EJA.
O professor Lopes, que até os 18 anos era incapaz de ler e escrever qualquer coisa,
nasceu no interior de Santa Catarina e passou a infância e a adolescência trabalhando
na lavoura juntamente com seus pais. Sua família é, ainda hoje, quase toda
analfabeta. O pai morreu há dois anos sem nunca ter aprendido a ler. A mãe e cinco
irmãos também são analfabetos. Apenas duas irmãs sabem ler e escrever. Aos 18
anos, o jovem Manoel Lopes, à procura de novas oportunidades, foi morar em
Florianópolis, capital de seu Estado. Trabalhando como servente de pedreiro,
começou a cursar, à noite, o ensino fundamental. [1° segmento] Da 1ª à 4ª série, fez
um curso integrado. Da 5ªà 8ª série, o supletivo [2° segmento]. O ensino médio [3°
segmento] foi cursado regularmente. Ele estudava com a intenção de garantir seu
sustento na capital. Manoel Lopes formou-se em Letras, fez dois cursos de pósgraduação
e foi aluno ouvinte no mestrado de Engenharia de Produção. O
depoimento desse jovem professor mostra o papel relevante da EJA: “Aprendi mais
do que ler e escrever, descobri que isso faz parte da dignidade humana e que ajuda a
dar longevidade ao cérebro e à vida”.
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Esse exemplo mostra que a educação é um instrumento que permite
mudança na vida de todas as pessoas, independentemente da idade ou classe social. Estudar
pode não resolver todos os problemas sociais, nem acabar com a injustiça social, mas é o
meio pelo qual a pessoa pode reescrever sua própria história.
Temos ressaltado várias vezes o caráter ideológico da educação. Aqui desejamos
apenas deixar explícito que esse caráter, sendo dado pela consciência social, traz a
marca de sua origem, isto é, em termos concretos, refere-se à consciência de alguém.
É um dos modos do pensar social, porém se expressa pela consciência dos
indivíduos que se ocupam desta questão, que são indivíduos vivos, dotados de
condições materiais e intelectuais, com interesses confessados e implícitos, com
desejos e intenções, etc. (Pinto, 2002, p. 50).
Não podemos nos esquecer das inúmeras outras histórias de vida que não
são mostradas nos jornais, mas que mudaram para melhor graças a EJA. Embora haja, ainda,
muito preconceito em relação a EJA é inegável o benefício que essa modalidade de ensino
tem prestado às pessoas que não puderam estudar na época apropriada.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do exposto foi possível rever alguns aspectos da educação de jovens e adultos, tais
como o histórico da EJA e sua evolução, a formação do professor e suas práticas de ensino na EJA, além de
constatar que a EJA é uma educação possível. Ao longo dos anos, o avanço da tecnologia e da economia tem
feito com que as pessoas sintam necessidade de retornar à sala de aula para aprimorar seus conhecimentos ou
conseguir um diploma atestando uma escolarização mais elevada.
Este artigo possibilitou identificar as características que deve possuir o professor que atua
com jovens e adultos e a importância do Respeito ao conhecimento que o aluno traz de seu dia-a-dia. fazer com
que o aluno seja um ser pensante, crítico e produtor do seu conhecimento, é requisito básico ao docente. O
professor é um suporte na sala de aula e muitos alunos têm seu professor como o espelho. Enfim, foi evidenciado
que o professor que atua com jovens e adultos deve ter uma capacitação específica para lidar com esses alunos,
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tal medida favorecerá o processo de aprendizagem e aumentará a satisfação dos alunos e, conseqüentemente,
diminuirá a evasão escolar. Percebemos também que a EJA é indiscutivelmente uma educação possível. Ou
melhor imprescindível. E que o fato do atraso para o ingresso na educação formal não é motivo para o não
ingresso mesmo que tardiamente, uma vez que a educação é um processo continuado e a-temporal.
É oportuno lembrar que todos podem e devem contribuir para o
desenvolvimento da EJA: os governantes devem implantar políticas integradas para a EJA, as
escolas devem elaborar um projeto adequado para seus próprios alunos e não seguir modelos
prontos, os professores devem estar sempre atualizando seus conhecimentos e métodos de
ensino, os alunos devem sentir orgulho da EJA e valorizar a oportunidade que estão tendo de
estudar e ampliar seus conhecimentos. À sociedade cabe contribuir com a EJA não
discriminando essa modalidade de ensino nem seus alunos, e por fim, as pessoas em geral que
conhecerem um adulto analfabeto deve falar da importância da educação e incentivá-los a
procurar uma escola de EJA.


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